Juliana Paes fala de sua nova personagem na Globo

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A exuberância e o carisma de Juliana Paes sempre chamaram atenção. Desde sua primeira personagem na tevê, a Ritinha de “Laços de Família”, exibida em 2000. Mas foi com “Caminho das Índias”, de 2009, que a atriz mudou de status dentro da Globo. A partir da indiana Maia, deixou de ser apenas intérprete de mulheres corpulentas e populares para ganhar espaço no rol de protagonistas de trama das 21 horas. De lá para cá, encarnou a personagem-título de “Gabriela”, atuou na experimental “Meu Pedacinho de Chão” e fez a vilã de “Totalmente Demais”, entre outros projetos. O reencontro com o texto de Glória Perez só acontece agora, depois de oito anos, em “A Força do Querer”. “Estar em uma novela dela é muito confortável porque sei que estou fazendo um papel social também, de colocar as pessoas para pensar. E o papel do artista é tocar as pessoas, fazê-las refletir e se emocionar. E acho que a Glória tenta, de uma maneira elegante e bacana, colocar o público para pensar”, enfatiza ela, que interpreta Bibi Perigosa.

Na história, a personagem de Juliana é diretamente inspirada em uma pessoa real, Fabiana Escobar, que ganhou o apelido de Bibi Perigosa quando o ex-marido, Saulo de Sá Silva, mais conhecido como o Barão do Pó, se tornou o chefe do tráfico de drogas na Rocinha, a maior favela do Brasil, localizada no Rio de Janeiro. Na pele de uma mulher extremamente passional, a atriz defende que as atitudes de Bibi podem ser explicadas pelo contexto em que ela está inserida. “O público vai ver, desde o começo, que minha personagem não é uma mulher de má índole. Foram as circunstâncias que a levaram para o mundo do crime”, justifica.

Em “A Força do Querer”, você interpreta uma mulher real, a Bibi Perigosa. O que mais chamou sua atenção em relação à personagem? A característica que eu acho mais legal na Bibi e que a Gloria faz questão de reforçar é que ela não é uma mulher de muxoxos, não é uma mulher de arrastar correntes. Quando reclama, não reclama para baixo, reclama para cima, gritando, com uma força. Essa foi a característica que eu trabalhei com mais vontade. A gente está falando de querer, de como o querer de um afeta o outro e até que ponto um querer passa a não ser ético e influencia na vida de alguém. Essa característica da Bibi de ser uma mulher forte, que tem os seus desejos, não importa quem ela vá atrapalhar, é muito importante. Em uma das entrevistas que a Fabiana (Escobar, a Bibi Perigosa) deu, ela falou: “eu não sou uma criminosa, mas o que eu posso fazer se o meu marido é? Eu o amo”. O que fazer quando se ama alguém que eticamente é contra o que você prega? É isso que a gente vai abordar.

Confira a entrevista com Juliana Paes

Como atriz, você procura justificar as atitudes de sua personagem para interpretá-la sem julgamentos? Acredito que as circunstâncias, a falta de oportunidades reais, as dores que se vive, acho que tudo isso vai formando um cenário para que alguém se desvie. Na vida, é muito fácil julgar. Os atos errados não se justificam, mas eles se explicam. A gente consegue explicar, às vezes, por que uma pessoa se tornou criminosa. Não digo que não mereça punição ou castigo, mas a gente consegue entender por que aquela pessoa chegou naquele lugar.

Como assim? Tudo que a Bibi faz é para manter a família porque acredita que, se conseguir isso com aquele homem, todo mundo reunido, tudo vai dar certo. É por um bem maior. É aquela mulher que ama demais, que gosta de servir e é muito apaixonada. Então, é ciumenta mesmo, se tiver de fazer barraco, ela faz. Não pensa muito antes de fazer e de falar. E essas características sempre são boas em personagem.

Você chegou a conversar com a Fabiana Escobar, a então Bibi Perigosa? Sim. Eu conversei com ela, batemos alguns papos. Além disso, li o livro que ela escreveu que se chama “Perigosa”, em que conta a história toda, para entender melhor esse universo, e bebi em outras fontes. Preparação para personagem é assim: ler um pouco aqui, ver um filme com alguma personagem que sirva de inspiração ali, conversar com autor e diretor e ir dando umas pinceladas. A personagem só acontece depois que vai ao ar, depois que as pessoas vão dando um “feedback”. Novela é assim. Em novela, o personagem só está pronto na última semana.

Quais foram essas outras fontes de inspiração para compor a sua Bibi? Eu também dei uma pesquisada nos grupos de mulheres que amam demais. Pesquisei sobre os arquétipos das deusas do amor que colocam em primeiro plano a vida sentimental, onde o amor é a força motriz. Tivemos uma preparação com Eduardo Milewicz para os atores ficarem mais íntimos. Em relação a filmes, tenho uma inspiração.

Qual? O filme “Foi Apenas Um Sonho”, com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. April, a personagem da Kate, é aquele tipo de mulher que tem uma energia, um desejo que atrai o homem. Enfim, a gente fez preparações em várias frentes.

Depois de pesquisar sobre o universo em que Bibi está inserida, o que mais surpreendeu você em relação à entrada de uma mulher de classe média para o mundo do crime? Existe algo em comum entre essas mulheres que vêm de família de classe média e que se apaixonam pelo mundo do crime que é a coisa de não serem pobres coitadas. Elas não vão só pela grana. Claro que tem a grana também como combustível, mas é mais o poder, o status que se tem nessas situações. É poder se sentir a “primeira-dama”, a escolhida no meio de tantas outras. Esses ingredientes foram os que eu achei mais importantes também para inserir na minha personagem. A Bibi abandona a faculdade de Direito. Em que momento ela deixa de ser essa menina classe média que está batalhando e fazendo tudo direitinho para se encantar pelo mundo do crime, para portar uma arma? A Bibi vai ter esse arco de transformação.

E como essa transformação se desenvolve na trama? No início, Bibi aparece até meio descabelada, com um vestidinho bem simples (risos). Mas, quando sentir que está podendo, vai usar e abusar de todas as armas de sedução porque vai entender que a sedução também faz parte desse universo. Em alguns momentos, ela vai usar isso como arma também, não só as armas que ela vai empunhar fisicamente. Ela vai usar o poder de sedução para poder dialogar com os traficantes. Tudo isso está nas nossas ideias, ainda não recebi nada disso escrito. Mas, nas minhas conversas com a Gloria, falamos sobre como a Bibi vai usar desses artifícios de mulher para estar em um ambiente que é puramente masculino.

“A Força do Querer” – Globo – De segunda a sábado, às 21h20

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