Isis Valverde surge mais segura na pele da ambígua Ritinha de “A Força do Querer”

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Isis Valverde está diferente. O jeito leve e o rosto de menina continuam intactos. É o discurso mais livre e evoluído que faz com que a atriz evidencie a maturidade de seus 30 anos. “Os últimos dois anos foram essenciais para eu me entender melhor e avaliar os rumos que queria para minha carreira. Eu tinha receio de falar sobre as coisas, hoje estou mais corajosa e certa do que quero defender”, destaca ela, que tem como uma de suas principais bandeiras a causa feminista. Para Isis, seu momento mais engajado combina bem não apenas com a história de Ritinha, a sereia que interpreta em “A Força do Querer”, mas com todo o empoderamento feminino que a novela assinada por Gloria Perez carrega. “A trama soube se utilizar das discussões atuais e promove grandes momentos para todas as protagonistas”, elogia.
Natural da pequena cidade mineira de Aiuruoca, Isis contrariou a vontade de seus pais ao sair de casa, aos 15 anos. Nos dois anos que morou em Belo Horizonte, trabalhou como modelo de campanhas publicitárias, mas sempre teve a carreira de atriz como meta. Na busca por novas oportunidades, acabou se mudando para o Rio de Janeiro, onde se dividia entre cursos de atuação e intermináveis testes para a tevê. “É preciso ser muito perseverante. Tive de ouvir muitos ‘nãos’ antes do primeiro ‘sim’. A partir disso, soube aproveitar as oportunidades”, garante a atriz, que estreou na Globo como a misteriosa Ana do Véu do “remake” de “Sinhá Moça”, de 2006. Em pouco tempo, Isis foi escalada para papéis de destaque em produções como “Caminho das Índias” e “Avenida Brasil”, além de protagonizar microsséries como “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados”. “A densidade das minhas personagens foi crescendo ao longo do tempo. Na ânsia de ganhar repertório, fui encarando tudo de frente. Agora chegou o momento de fazer as coisas com mais calma”, ressalta.

“A Força do Querer” é trabalho que marca sua volta à tevê depois de um período sabático de dois anos. O que a motivou a pedir esse “tempo” à Globo? A vida, né? Com alguns pequenos intervalos, me dediquei à emissora desde que passei nos testes para viver a Ana do Véu de “Sinhá Moça”, no final de 2005. A novela estreou em 2006. Cheguei na televisão muito ingênua, muito bobinha. Tive a sorte, e também a determinação, não apenas de aceitar convites interessantes, mas de buscar personagens que me tirassem do óbvio. Só que, para fazer algo que eu realmente queria, tive de viver outras personagens para fazer valer meu contrato. Sempre entendi que início de carreira era assim mesmo e isso é ótimo para ganhar repertório. Quando terminei “Boogie Oogie” (2015), já estava há quase uma década no ar e muito cansada. Pedi um tempo e a Globo entendeu.

E qual foi o saldo desse tempo distante do vídeo? Volto muito mais segura de mim e do que quero para minha carreira. Estudei bastante, descansei, viajei e também me envolvi com alguns projetos de cinema, que eu não conseguia fazer por conta dos compromissos com a tevê. Usei esse tempo para assimilar tudo o que me aconteceu em dez anos de carreira. Não tive um preparo para lidar com as coisas, elas simplesmente foram acontecendo e eu me adaptando. O chamado da Gloria (Perez) chegou em um momento muito oportuno.

Por quê? Já estava com saudade do trabalho e planejando voltar. Mas queria que esse retorno fosse especial, tivesse a ver com os meus anseios artísticos do momento. A Ritinha é uma personagem mágica que vai tendo de se adaptar às realidades da vida. Quando li a sinopse, pensei: “quero muito contar essa história”. Além da minha personagem, a mensagem feminista da trama da Gloria como um todo é maravilhosa e se mostra essencial nos tempos estranhos que vivemos.

Você já sofreu muito com o machismo no trabalho? Não apenas no trabalho, mas na vida como um todo. A sociedade é machista e muitos homens e mulheres agem dessa forma por condicionamento. Se os homens soubessem o quanto o feminismo também é benéfico para eles, muitos deixariam de pensar e falar as besteiras que divulgam por aí.

Como assim? Muita gente acha que a luta feminista é sobre a mulher se tornar superior ao homem. Quando, na verdade, é a busca pela igualdade de forças e oportunidades. Os homens também lucram com o feminismo ao terem a chance de se mostrarem mais sensíveis. Conheço muitos que não choram em público apenas por uma convenção social e isso é triste. Ainda criança, tive a primeira noção da importância do feminismo quando eu via que os meninos da família tinham muito mais liberdade que eu. Nunca vou esquecer da minha mãe olhando para mim e falando: “que pena que nasceu mulher”. Ela estava ironizando as atitudes das pessoas ao nosso redor e isso foi muito esclarecedor. Sigo engajada na causa e a Ritinha me ajuda nisso.

De que forma? É uma personagem que celebra a liberdade feminina. Associam a figura da mocinha a uma mulher doce e apaixonada à espera do “felizes para sempre” ao lado do herói. A Ritinha rompe com isso ao ser verdadeiramente apaixonada apenas por ela mesma. Ela é uma sereia que enlouquece e encanta os homens ao redor. Não se prende a esses amores porque olha mais para seus desejos. Ritinha subverte o que as pessoas em geral acham correto e inverte a ordem das relações de poder entre homens e mulheres.

Você divide o protagonismo de “A Força do Querer” com outras quatro atrizes. Quais os prós e contras de compartilhar o “peso” de uma novela? Só vejo benefícios. Adoro o mosaico de histórias que a Gloria consegue criar com essa novela. E o mais empolgante é que todas as atrizes brilham ao mesmo tempo. As pessoas acham que temos menos trabalho com essa divisão, mas as tramas são tão bem trabalhadas e desenvolvidas que a exigência acaba sendo a mesma de uma novela com protagonista solo. É cada bolão de texto para decorar! Além de muitas cenas diárias.

A “Força do Querer” termina em outubro. Você já tem noção de seus próximos passos na tevê? Não quero ficar mais tanto tempo distante, mas também preciso de férias. A Ritinha exigiu bastante de mim. Muito antes de começar a gravar, já estava treinando a respiração e o nado com a calda dentro de uma piscina. Claro que, se aparecer uma personagem irresistível, abro uma exceção. Mas precisa ser um trabalho realmente instigante. A coisa mais maravilhosa que a passagem dos 30 anos me deu foi aprender a dizer “não” sem cerimônias. É de uma liberdade maravilhosa e que me faz seguir por caminhos cada vez mais diversos.

“A Força do Querer” – Globo – De segunda a sábado, às 21h.

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